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Cirurgias da intimidade
  quarta-feira, 10 de maio de 2006, 10:00h.

 

Cirurgia vaginal - Para mulheres como Adriana Jardel

Recorrem às operações plásticas à vagina para corrigir danos causados pela maternidade, envelhecimento ou porque vivem infelizes com o que a natureza lhes deu. Um tabu que Adriana Jardel aceitou ajudar a quebrar.

Adriana Jardel, 37 anos, já tinha ouvido falar em cirurgia da intimidade (o nome adoptado para definir as operações plásticas ao órgão genital feminino) e decidiu submeter-se a um rejuvenescimento vaginal.

Após dois partos normais [tem filhos de 10 e 8 anos], a filha do falecido actor brasileiro Jardel Filho – produtora de eventos em Portugal – sentiu que o seu órgão mais íntimo estava diferente. “Por mais que tenha feito exercício pós-parto, ‘ela’ [vagina] não voltou a ser o que era, porque fui aberta e não me coseram. É que o meu segundo filho nasceu na minha casa de Cascais e só depois fui para o hospital”, conta.

Com o incentivo do namorado e a mãe deste [que se submeteu à mesma intervenção no Brasil], Adriana não hesitou. “Não sabia que já se fazia esta cirurgia em Portugal. Até que, em conversa com uma amiga, ela me falou do cirurgião Ângelo Rebelo. Mas antes ainda consultei a minha ginecologista. Ela mostrou-se receptiva à ideia”, recorda Adriana, sublinhando que não precisava de recorrer ao privado se tivesse sido convenientemente assistida nos hospitais públicos [portugueses] onde os filhos nasceram.

As intervenções de correcção há muito que se praticam nas nossas unidades hospitalares.

Álvaro Choen, prestigiado obstetra e ginecologista na Maternidade Alfredo da Costa assegura: “São correcções simples, com anestesia local e que os obstetras estão habilitados a fazer. Em termos clínicos são plastias de correcção, ou perineoplastias, que se efectuam logo após o parto, sobretudo em pacientes que já tiveram mais do que um filho. Mas são práticas que tendem a desaparecer, seguramente, porque o trabalho de parto, hoje, é bem gerido.”

Já para intervenções mais complicadas, o obstetra diz que “é necessário ter formação cirúrgica.”

Maria (nome fictício), 39 anos, publicitária, mãe de dois filhos, foi paciente de Álvaro Cohen e conta à Vidas como a sua vida íntima mudou depois de se ter submetido a esta intervenção. “Logo após o bebé nascer, o dr. Álvaro explicou-me que necessitava de uma pequena correcção na zona genital.

E fê-la.” O que Maria não sabia é que também iria afectá-la a outros níveis. “Dias depois do parto senti-me logo diferente porque, ao contrário do primeiro, não tive qualquer infecção. Sentia-me muito mais confiante e ainda mais quando, duas a três semanas depois, tive relações sexuais. Foi fantástico. E, claro, o Paulo [marido] reparou. Ela [a vagina] está cinco estrelas. Não fazia ideia que isto se fazia”, recorda.

Menos sorte teve Adriana. Desde que foi mãe pela primeira vez, há 10 anos, que a produtora de eventos procurava sentir-se melhor com o seu genital, mas sem objectivos estéticos. “O que vou fazer é um procedimento interno, uma correcção. Não quero que ‘ela’ [a vagina] fique bonitinha, mas apenas deixar de sentir – durante a relação sexual –, que ‘ela’ está um pouco maior do que antes. E isso incomoda”, explica. Corrigir os danos causados pelos partos, nomeadamente o relaxamento que o órgão sofreu com as gravidezes e ainda recuperar a saúde sexual foram motivos mais do que suficientes para a produtora marcar a perineoplastia.

MARIDOS E NAMORADOS DISTANTES

A primeira cirurgia plástica a que se submeterá está marcada para Maio e Adriana conta com o apoio incondicional do namorado. “Ele acha que é bom que eu faça”, diz. Mas Manuel é um caso raro. Segundo o cirurgião plástico Ângelo Rebelo, “raramente uma mulher conta ao marido ou companheiro, até porque nem ela sabe muito bem como abordar a questão sem que se sinta constrangida. Regra geral vêm à consulta com uma amiga.”

Em Portugal ainda há um certo constrangimento e, segundo este médico, “muitas mulheres não conhecem a sua anatomia e, por isso, são capazes de viver com uma deficiente qualidade de vida sexual. Mas quando sabem que estas cirurgias não se praticam apenas pela estética e as fazem, a sua vida afectiva sofre uma mudança positiva”, garante Ângelo Rebelo.

Para este cirurgião, formado na Coreia com uma discípula do americano David Matlock (o ginecologista, obstetra e cirurgião plástico vaginal das estrelas de Hollywood), toda a cirurgia estética da mulher está ligada à sua sexualidade.

“Antes de me submeter a esta cirurgia sentia-me incomodada com a aparência dos meus órgãos. Não tinha orgulho do meu corpo. Sempre que iniciava uma relação sentia-me inibida, e, consequentemente, a minha sexualidade foi-se suprimindo.

Depois da operação tudo mudou”, conta Liliana (nome fictício), 45 anos, advogada, que se submeteu a uma vaginoplastia.

Também Dina (nome fictício), 35 anos, professora, considera que a sua vida sexual melhorou após realizar uma labioplastia. “Faz agora um ano que me submeti a uma cirurgia de redução dos lábios e os resultados foram melhores do que esperava. Agora estou feliz com a minha aparência, sinto-me segura e desfruto muito mais do sexo agora.”

Segundo Ângelo Rebelo, a cirurgia da intimidade (cujo pioneiro foi o médico francês Jean Pierre Fournier), começa a deixar de ser tabu e a ganhar popularidade em todo o Mundo, graças às cirurgias de correcção e rejuvenescimento. E, garante o cirurgião, “a mulher que procura um tratamento estético, em todo o Mundo, tem como referência as vaginas das manequins da ‘Playboy’.

Muitas levam mesmo a revista, apontando o ‘modelo’ que mais lhes agrada. Já me aconteceu com uma paciente que é ‘stripper’.

NOVA VIRGINDADE COMO PRENDA

Também frequente é a himenoplastia (reconstrução do hímen). “É uma intervenção que se faz há anos, sobretudo em determinadas culturas por questões culturais e morais. Mas também já começa a ser pedida como ‘prenda’ de casamento em Portugal e nos EUA e em alguns países da Europa já pegou mesmo moda”, conta o cirurgião.

Para a ‘prenda’ ter efeito surpresa, avisa o cirurgião, a operação deverá ser feita dois a três dias antes do ‘desfloramento’.

Mas há casos bizarros, pelo que Ângelo Rebelo trabalha conjuntamente com um psicólogo. Quando existe alguma perturbação, o cirurgião vê-se obrigado a recusar. “Tive uma senhora que pediu para corrigir o clítoris (clitoriplastia) e que queria estar em permanente excitação. O que até é possível no caso de se retirar o excesso de prepúcio“, explica o cirurgião, mas acrescentando que com esta intervenção “a mulher excita-se com o toque da lingerie, da cadeira, ou seja, fica em excitação permanente”.

O cirurgião assegura que, pouco a pouco, os tabus vão caindo. “A cirurgia da intimidade já teve alguns nomes. A propósito, há uns anos, uma paciente pediu-me que lhe fizesse uma correcção na zona genital e chamou-lhe ‘afinação’”, conta, acrescentando: “Quando uma mulher é jovem tem os lábios da boca bonitos e carnudos, mas o tempo faz com que ‘murchem’. O mesmo acontece com os órgãos genitais”.

Mas a verdade é que não há idade para ter determinados problemas.

Não há muito, Ângelo Rebelo teve nas mãos uma jovem paciente. “Uma das últimas labioplastias que fiz foi a uma jovem de 20 anos. Ela tinha um lábio maior do que outro, o que provocava incómodo, sobretudo se usasse algumas roupas justas. E o que fizemos foi corrigir este defeito”, explica.

São todas cirurgias simples, que se fazem com anestesia local e que a mulher retoma a sua vida profissional no dia seguinte. “Não há pontos a tirar e não há pensos. Apenas algumas semanas de cicatrização, o que obriga a abstinência sexual. Uma média de três a quatro semanas”, conclui.

Mas Ângelo Rebelo não opera qualquer mulher. Para que haja entendimento, a paciente terá de lhe facultar o seu historial clínico e ainda realizar uma série de detalhados exames e análises. “Ele quis saber tudo sobre mim e mandou fazer muitas análises e exames, até ao HIV”, confirma Adriana Jardel. Uma mulher, mãe e profissonal que espera que a coragem de ter dado a cara por este tema valha a pena. “E que posssa ajudar outras mulheres a procurarem ajuda para os seus problemas íntimos.”

'A DUPLA JARDEL'

“Muita gente pergunta se sou prima do futebolista Mário Jardel, mas não. No entanto, a origem do seu nome está ligado à minha família. A mãe do jogador admirava tanto o meu pai, Jardel Filho, que em sua honra deu o mesmo nome ao filho”, esclarece Adriana Jardel.

AS MAIS FEITAS EM PORTUGAL

LABIOPLASTIA

Correcção dos pequenos lábios que causam incómodo.

PERINEOPLASTIA

Diminui a entrada da vagina que alargou devido a partos ou ao envelhecimento.

VAGINOPLASTIA

Corrige defeitos dos partos, estreita o canal vaginal e a musculatura.

“Uma percentagem enorme de mulheres desconhece a sua anatomia e muitas desconhecem que este tipo de cirurgias se fazem”, diz Ângelo Rebelo.

PREÇOS PARA UMA VIDA MAIS SAUDÁVEL

Por questões clínicas ou estéticas, a mulher pode submeter-se a estas intervenções que, para o cirurgião, são simples e realizadas com anestesia local. Após a operação, a mulher retoma a sua vida profissional no dia seguinte. E, pela técnica utilizada pelo cirurgião, não há pontos a tirar e o tempo de abstinência é reduzido.

1. LABIOPLASTIA

Tempo: 30 a 45 minutos

2. REJUVENESCIMENTO E REMODELAÇÃO VAGINAL

(inclui as seguintes cirurgias: labioplastia, perineoplastia; clitoroplastia, lipecultura, lipofilling e himenoplastia)

3. PERINEOPLASTIA

Tempo: 45 a 90 minutos

4. VAGINOPLASTIA

Tempo: 45 a 90 minutos

5. LIPOESCULTURA GRANDES LÁBIOS

Tempo: 15 a 30 minutos

6. PLASTIA DO PONTO 'G'

Tempo: 15 a 30 minutos

7. HIMENOPLASTIA

Tempo: 15 a 30 minutos

8. LIPOFILLING

Tempo: 15 a 30 minutos

FONTE: Clínica Milénio, preços incluem honorários da equipa médica, gastos de material e clínica

NOTA: O tempo médio de abstinência sexual para cada operação é de três a quatro semanas.

SAIBA O QUE É

1 - Cirurgia para reduzir tamanho aos pequenos lábios (demasiado desenvolvidos dificultam o uso de algumas roupas)

2 - Intervenção que serve para expor o clítoris, retirando a pele/mucosa em excesso, ou diminuir o seu tamanho (maior facilidade em atingir o orgasmo)

3 - Cirurgia para correcção de sequelas pós-parto, ‘aumentar’ ou ‘reduzir’ o tamanho da vagina.

4 - Corrige defeitos como o relaxamento da musculatura vaginal distendida e relaxada pela idade e pós-parto. O canal vaginal é estreitado (a mulher deixa de ter prazer e pode levar à incontinência urinária)

5 - Tira a gordura em excesso na zona púbica. (Este excesso é inestético)

6 - Pequeno procedimento para aumentar a sensibilidade e prazer através do aumento deste ‘ponto’.

7 - Cirurgia para ‘refazer’ o hímen (recuperar a virgindade)

8 - Enxerto de gordura para aumentar o volume dos grandes lábios que vão perdendo volume com a idade (atrofia)

QUEBRAR O TABU

Ângelo Rebelo vai realizar um ciclo de conferências sobre cirurgia estética. O primeiro encontro versa a cirurgia da intimidade e terá Helena Sacadura Cabral entre os oradores para falar sobre a sexualidade das portuguesas.

Desmistificar a cirurgia estética e começar por quebrar tabus com as chamadas cirurgias da intimidade levaram Ângelo Rebelo a dar início a um ciclo de conferências, abertas ao público e de entrada gratuita. Terão lugar no Hotel Pestana Palace, em Lisboa, e a primeira realizar-se-à já no próximo dia 13 de Maio, a partir das 17 horas.

“Iremos começar com as cirurgias de rejuvenescimento e remodelação vaginal”, diz. Para isso, o cirugião vai contar com um painel de convidados muito especiais: o psiquiatra Luiz Gamito vai falar sobre a sexualidade feminina; a ginecologista coreana, drª Kang sobre a sua experiência; e a economista e escritora Helena Sacadura Cabral levará a conferência o tema ‘A Mulher Portuguesa e a Sexualidade’. Ângelo Rebelo, por seu turno, abordará temas relacionados com o seu trabalho, começando pelas intervenções mais solicitadas: labioplastia, perineoplastia e a vaginoplastia.

TÉCNICA PORTUGUESA MAIS ACESSÍVEL

Além de oferecer uma cicatrização mais rápida, a técnica do cirurgião português sai mais barata ao médico e à paciente do que a usada nos EUA.

“É a evolução mais recente que temos como materiais auxiliares das cirurgias”, começa por defender Ângelo Rebelo ao justificar a técnica por ele utilizada: radiofrequência.

Mas há outras vantagens que foram determinantes para que o cirurgião escolha este instrumento de trabalho. É que, comparativamente ao laser (utilizado pelo médico americano Matlock), ou ao electrobisturi (utilizado pelo francês Faunier), a radiofrequência permite uma cicatrização mais rápida, além de ser um aparelho mais barato que o laser. E, consequentemente, o valor pago pelo paciente é inferior. No entanto, Ângelo Rebelo diz que se trata de técnicas diferentes de cirurgia, mas que o resultado é o mesmo.

Autor: Teresa Oliveira
Fonte: Correio da Manhã

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