Restrições e incômodos gerados pela incontinência urinária são capazes de gerar depressão e estresse. Uma pesquisa realizada há pouco mais de um ano pelo Setor de Urologia Feminina e Disfunções Miccionais da Universidade Federal de São Paulo descobriu que o nível de estresse chega a ser três vezes maior que o de pacientes que são submetidos a três sessões de diálise por semana. Isso porque as consequências da incontinência chegam a afetar a vida social e os acometidos por esse distúrbio precisam adaptar rotinas, hábitos e comportamento para lidar melhor com os transtornos que podem ocorrer.
A aplicação da toxina botulínica é um dos tratamentos alternativos que consegue proporcionar, no tempo que duram seus efeitos, uma vida mais tranquila a pacientes. Geralmente, a toxina botulínica é bem aceita, mas o tratamento é indicado para um tipo específico do problema, a incontinência de urgência, também conhecida por Bexiga Hiperativa. “O paciente sente uma necessidade repentina de urinar, mas não consegue chegar ao banheiro a tempo”, resume o urologista Bráulio Passos.
Nesse tipo de incontinência, há danos nos nervos que conectam o cérebro e a bexiga, resultando em contrações incontroláveis do músculo da bexiga que forçam a eliminação da urina. É comum que esses danos nervosos sejam consequência de AVC (derrame cerebral), Doença de Parkinson, Mal de Alzheimer, infecções e tumores do sistema nervoso central, traumatismos de coluna, traumatismos cranianos, outras doenças no sistema nervoso e até por causas desconhecidas.
O médico ressalta, portanto, que o toxina botulínica não está indicado nos casos do outro tipo do problema, a incontinência urinária de esforço, que consiste na perda do suporte uretral, comum nas mulheres por conta da gestação e seu esforço físico e por uma queda nos níveis de estrogênio depois da menopausa.
Aplicação
Além de não ser indicado para quem sofre de incontinência urinária de esforço, o tratamento com toxina botulínica não é recomendável para pacientes com infecção urinária, alérgicos à toxina, portadores de algumas doenças neurológicas, grávidas ou com obstrução urinária (como, nos casos, dos pacientes com dificuldade de urinar em decorrência de problemas de próstata).
O uso é uma opção depois que outros procedimentos utilizados não surtiram o efeito esperado ou em caso de ocorrências de efeitos colaterais da medicação, como boca seca, tontura, constipação, sonolência e turvação visual, como enumera Passos.
O tratamento da bexiga hiperativa a partir do toxina botulínica é seguro e raramente apresenta complicações. “O procedimento é relativamente simples, pode ser realizado em caráter ambulatorial ou hospitalar e, geralmente, o paciente tem condições de alta no mesmo dia. É necessário anestesia local, raquidiana ou sedação”, informa o urologista. A desvantagem desse tratamento, diz ele, é o efeito temporário - de seis a nove meses, sendo necessária nova aplicação após esse período.
É praticamente o mesmo funcionamento que o botox oferece para tratamento estético, pois paralisa a músculo da bexiga, impedindo a contração involuntária desta e a vontade súbita de ir ao banheiro. O cuidado está em aplicar a dose certa para promover a contração, mas não a ponto de coibir a micção.
O custo do tratamento varia conforme o tipo de anestesia, internação e honorários do profissional, além da própria indicação médica. “Depende da concentração da dose a ser aplicada.
A incontinência
Ao contrário do que se imagina, a incontinência urinária pode afetar de crianças a idosos, homens e mulheres. Entretanto, as mulheres que têm três vezes mais chances de serem afetadas pelo problema, principalmente, explica o médico, “a incontinência urinária de esforço, decorrente de danos ou enfraquecimento dos músculos da pélvis, os quais são responsáveis por sustentar a bexiga e a uretra, com isso a continência da urina”. Partos, menopausa, fraturas na pélvis e certos tipos de cirurgia, como histerectomia (remoção do útero) ou prostatectomia (remoção da próstata) são causas desse distúrbio.
Outros tratamentos
Durante uma atividade que exija um esforço repentino ou cause uma pressão na bexiga, como espirrar, tossir, praticar certos esportes, pode haver a liberação da urina. “Mas nestes casos o uso de toxina botulínica não é indicado. E sim tratamentos específicos, como exercícios físicos, fisioterapia, medicamentos ou procedimentos cirúrgicos”. Hábitos e comportamento são complementares ao tratamento medicamentoso da incontinência urinária. Atenção à ingestão de líquidos, cerca de 1,5 litro por dia, como indica o urologista, restrição ao álcool, cafeína, nicotina e um treinamento do paciente visando aumentar o tempo para urinar colaboram com os medicamentos atuantes sobre o trato urinário, tais como diuréticos e alfa bloqueadores. “Utiliza-se também a eletro-estimulação, que são estímulos elétricos inibidores da contração da bexiga. Podemos associar a essas medidas o uso de medicamentos específicos, como anticolinérgicos e alguns tipos de antidepressivos que provocam relaxamento da musculatura da bexiga”, avisa Passos. Em casos muito raros o paciente pode precisar de um procedimento cirúrgico.